Principais Lições
1. A Ascensão do Autoritarismo Americano: Uma Nova Ameaça à Democracia
Este movimento — ou, mais precisamente, a minha investigação sobre ele a partir de uma ampla, porém necessariamente limitada, gama de experiências e perspectivas — é o tema deste livro.
Um repúdio profundo. Surgiu uma nova variante, distintamente americana, de autoritarismo ou fascismo, que rejeita radicalmente os ideais iluministas de igualdade, pluralismo, razão e representação democrática sobre os quais a república americana foi fundada. Esse movimento sustenta que a América está dedicada a uma religião e cultura específicas, traída por uma elite insidiosa, e que deve ser “redimida” a qualquer custo. Acredita que certos americanos têm o direito de governar, enquanto outros devem obedecer.
Enraizado na desigualdade. A crise tem raízes profundas na enorme desigualdade econômica das últimas cinco décadas, que transformou a América capitalista numa espécie de oligarquia, onde os 0,1% mais ricos dobraram sua fatia de riqueza enquanto os 90% mais pobres perderam a correspondente parcela. Essa disparidade alimenta a irracionalidade, a ansiedade de status e a suscetibilidade a teorias conspiratórias e desinformação, criando uma política de raiva e ressentimento que é mais uma patologia do que um programa.
Um ataque sério e direto. Esse movimento não busca um lugar à mesa, mas sim queimar a casa da democracia americana, promovendo ativamente a divisão e a desinformação. Representa a ameaça mais grave à democracia americana desde a Guerra Civil, com seus diversos elementos prosperando nas crescentes divisões educacionais, culturais, regionais, raciais, religiosas e informacionais.
2. Dinheiro Oculto Alimenta a Máquina Antidemocrática
A característica distintiva dos Financiadores é que escolheram investir suas fortunas na subversão da democracia.
Benfeitores bilionários. Um número ínfimo de indivíduos super-ricos, beneficiários da concentração crescente de riqueza, financia ativamente o movimento antidemocrático, acreditando cinicamente que manipular as massas por meio da desinformação aumentará sua prosperidade. Esses “Financiadores” incluem figuras como Betsy DeVos, os irmãos Wilks, Rebekah Mercer, Tim Dunn, os irmãos Koch e bilionários secretos como Barre Seid, que doou US$ 1,6 bilhão a um fundo controlado por Leonard Leo.
Investimento estratégico. Esses recursos imensos são canalizados por uma poderosa rede de organizações, redes e think tanks com nomes inofensivos como Federalist Society e Heritage Foundation. Essa infraestrutura de “dinheiro oculto” apoia a negação das mudanças climáticas, a privatização das escolas, esforços anti-sindicais e a captura judicial, garantindo que as queixas do movimento sejam transformadas em armas contra a democracia estabelecida. A National Christian Foundation e a DonorsTrust são intermediárias-chave, distribuindo bilhões para causas conservadoras e religiosas.
Terceirização da ideologia. Muitos Financiadores, frequentemente operando com ideias simplistas e reacionárias, terceirizam seu pensamento para os “Pensadores” — uma classe profissional de instituições de elite que elaboram as reivindicações intelectuais do movimento. Essa dinâmica cria um sistema onde os ricos compram uma ideologia que justifica seu poder e privilégio, mesmo que isso signifique destruir instituições democráticas. O objetivo final é substituir um Estado que busca o bem comum por outro que serve interesses privados.
3. A Guerra Contra a Educação Pública: Um Ataque Estratégico
Nosso objetivo não é apenas atirar pedras. Nosso objetivo é derrubar o sistema educacional como o conhecemos hoje.
Minando a confiança pública. Grupos como Moms for Liberty, apoiados por financiamentos significativos de figuras como Julie Fancelli e organizações como o Leadership Institute, desestabilizam ativamente a educação pública promovendo “direitos dos pais” e atacando currículos relacionados a temas LGBT, educação sexual e teoria crítica da raça. Suas táticas envolvem interromper reuniões de conselhos escolares, contestar livros e espalhar desinformação para fomentar a “desconfiança universal nas escolas públicas”.
Privatização e lucro. A agenda subjacente é desmontar a educação pública e substituí-la por academias privadas financiadas publicamente e ensino domiciliar subsidiado pelo contribuinte. Empreendedores como Erika Donalds, esposa do congressista Byron Donalds, criam empresas com fins lucrativos e organizações sem fins lucrativos que se beneficiam dos esquemas de privatização escolar, frequentemente alinhadas a instituições como Hillsdale College. Isso desvia fundos públicos para entidades privadas e religiosas.
Raízes históricas da hostilidade. A hostilidade à educação pública remonta à era da Reconstrução, quando supremacistas brancos se opunham às escolas integradas e promoviam esquemas de vouchers para academias religiosas privadas e racistas. Figuras como Rousas J. Rushdoony e Jerry Falwell Jr. demonizaram as escolas públicas como “escolas do governo” ou “templos do humanismo secular”, uma narrativa que persiste até hoje para justificar sua destruição.
4. “Wokeismo” como a Mentira Unificadora da Nova Direita
Todo o Projeto 2025 é um plano para unir o movimento conservador e o povo americano contra o domínio da elite e os guerreiros da cultura woke.
O inimigo existencial. A “guerra contra o woke” serve como a mentira central e unificadora da Nova Direita, enquadrando o “wokeismo” como uma ameaça totalitária e existencial à civilização ocidental. Esse inimigo amorfo é retratado como um “Borg globalista” ou “comunismo woke” que capturou elites, instituições e até mesmo as forças armadas, buscando “cancelar” pessoas de pensamento correto e impor um “credo blasfemo”.
Um bode expiatório conveniente. Essa narrativa permite demonizar grupos diversos — cosmopolitas, supereducados, de gênero fluido, anti-cristãos — e desviar o foco dos próprios objetivos antidemocráticos do movimento. É uma forma sofisticada de política identitária, onde um segmento da classe média alta expressa profundo ressentimento e medo em relação a outro, projetando a si mesmos como vítimas enquanto organizam a opressão.
Justificando medidas extremas. A “emergência permanente” percebida do “wokeismo” justifica quaisquer meios para “aniquilar” seu poder, incluindo violência política e a reversão de eleições. O Projeto 2025, um plano abrangente para uma presidência conservadora, enquadra explicitamente sua agenda como uma guerra total contra a “ideologia woke”, exigindo a “desconstrução do Estado administrativo” e a imposição de uma ordem religiosa e patriarcal específica.
5. O Instituto Claremont: Arquitetos do Niilismo Reacionário
O mundo que os homens de Claremont pensam habitar — em oposição à visão que desejam promover entre o público — parece não reconhecer verdade além do poder e valor além da vitória.
Centro intelectual da reação. O Instituto Claremont, financiado por figuras como Thomas D. Klingenstein, serve como um centro intelectual chave para a Nova Direita, oferecendo plataforma para figuras como Michael Anton, Christopher Rufo e John Eastman. Antes conhecido por discursos elevados sobre os fundadores da América, agora legitima a violência e o iliberalismo, abraçando uma visão de mundo onde “direito natural” frequentemente se traduz no “direito de fazer tudo o que a natureza não impede”.
Influência schmittiana. A trajetória intelectual do Claremont revela uma profunda, embora muitas vezes não reconhecida, influência de Carl Schmitt, teórico político nazista que enfatizou a distinção “amigo/inimigo” e o direito do soberano de agir em “estado de exceção”. Essa estrutura justifica medidas extremas contra inimigos domésticos percebidos (“os woke”) e vê o moderno Estado administrativo como uma força tirânica que suprime a política genuína.
Masculinidade e misoginia. As publicações do instituto, como a American Mind, estão repletas de conteúdo misógino e racista, promovendo figuras como o “Nacionalista Ovo Cru” e Scott Yenor, que defendem a dominação masculina e culpam o feminismo pelos males sociais. Essa agenda de “masculinidade”, frequentemente revestida de retórica pseudoclássica, serve para desumanizar opositores e justificar um retorno às hierarquias patriarcais, chegando a fantasiar sobre “senhores da guerra” e “Césares Vermelhos”.
6. Guerreiros do Espírito: Armas da Fé para o Poder Político
Esta é uma estratégia executável... é viável e tão estratégica em sua natureza que, condado por condado... em toda a América, isso pode ser feito.
Um estilo religioso em ascensão. Um estilo mais quente e reacionário de religião, frequentemente pentecostal e carismático, está crescendo nos Estados Unidos, atravessando divisões denominacionais tradicionais. Esse movimento dos “guerreiros do espírito”, exemplificado por figuras como Julie Green, Sean Feucht e Lance Wallnau, prospera na instabilidade política e econômica, demonizando adversários como “demoníacos” e engajando-se em “guerra espiritual” para fins políticos.
Dominionismo e conspiração. Central a esse movimento está a ideologia do Dominionismo das Sete Montanhas, que afirma que os cristãos devem dominar todos os aspectos da cultura — governo, negócios, mídia, educação, entretenimento, família e religião. Isso frequentemente se funde com teorias conspiratórias semelhantes ao QAnon, alegando que “bilionários globalistas” ou “minions de Satanás” estão por trás dos problemas sociais, e que figuras como Donald Trump são “ungidas” por Deus para combater esses males.
Exploração política. Líderes republicanos, incluindo Ron DeSantis e Mike Johnson, adotaram a linguagem e os tropos dos guerreiros do espírito, enquadrando as batalhas políticas como conflitos espirituais contra “os esquemas da esquerda” ou “vírus mentais woke”. Esse fervor religioso é explorado para mobilizar uma base de eleitores da classe média sem ensino superior, que, movidos por ansiedades econômicas e raciais, são persuadidos a apoiar ações e líderes antidemocráticos.
7. Exportando a Contrarrevolução: Uma Aliança Global Contra o Liberalismo
Hoje, porém, setores da direita americana tornaram-se exportadores da contrarrevolução antidemocrática.
Da democracia à reação. Antes exportadora de revolução democrática, os EUA agora exportam contrarrevolução antidemocrática, com seus nacionalistas cristãos e guerreiros culturais da Nova Direita promovendo ideias e agendas globalmente. Isso é evidente na aliança entre uma ala dominante do Partido Republicano e a Rússia de Vladimir Putin, construída sobre o ódio compartilhado ao secularismo, aos papéis de gênero não tradicionais e à modernidade.
Redes globais “pró-família”. Organizações como o Congresso Mundial das Famílias (WCF) e a Rede Política pelos Valores (PNfV), estabelecidas com colaboração americana e russa, promovem uma agenda de “família natural” em todo o mundo. Essas redes, apoiadas por grupos como ADF e CitizenGO, fazem campanha ativa contra os direitos das mulheres e LGBT, enquadrando o progresso dos direitos humanos como uma ameaça às “liberdades religiosas” e aos valores tradicionais.
Influência e financiamento estratégicos. Grupos cristãos conservadores dos EUA gastaram centenas de milhões globalmente para avançar sua agenda, influenciando políticas em países como Polônia, Irlanda e Costa Rica. Esse ativismo transnacional é mutuamente reforçador, com táticas americanas (por exemplo, protestos antiaborto, centros de gravidez de crise) sendo adotadas no exterior, e sucessos estrangeiros (como a proibição do aborto na Polônia) inspirando o movimento nos EUA.
8. O Caminho a Seguir: Recuperando a Democracia
A longo prazo, pode-se esperar que o movimento MAGA e seus defensores não pareçam tão diferentes de Patrick Buchanan e dos America Firsters.
Mobilizar a maioria. Apesar da ascensão alarmante das forças antidemocráticas, aqueles que acreditam na democracia continuam sendo a maioria. O caminho a seguir exige construir uma ampla e inclusiva coalizão pró-democracia, aprendendo com a capacidade da direita de unir grupos díspares e priorizando o compromisso democrático acima das diferenças políticas.
Enfrentar vulnerabilidades sistêmicas. Os elementos contramajoritaristas da Constituição dos EUA, como o Colégio Eleitoral e a captura partidária da Suprema Corte, devem ser reformados por meio de diretrizes éticas aplicáveis, limites de mandato e proteções ao direito de voto. Essas mudanças estruturais são cruciais para impedir que uma minoria militante domine a nação.
Combater desigualdade e desinformação. A extrema desigualdade econômica alimenta a reação antidemocrática, tornando essencial a tributação progressiva e o combate ao dinheiro oculto. Simultaneamente, enfrentar a desinformação requer fortalecer a educação pública e fomentar um sistema de mídia responsável pela verdade, reconhecendo que o ecossistema de direita é particularmente hábil em introduzir falsidades fabricadas no discurso dominante.
Recuperar a separação entre igreja e Estado. A instrumentalização da religião para fins políticos, com organizações isentas de impostos atuando como células políticas partidárias, exige reforma no financiamento de campanhas e na tributação. A verdadeira liberdade religiosa significa liberdade de financiar religiões alheias e de coerção religiosa na vida pública, demandando tanto reformas legais quanto um renovado compromisso das comunidades de fé com a justiça e a democracia.
Resumo das Resenhas
Dinheiro, Mentiras e Deus investiga como o nacionalismo cristão, bilionários poderosos e movimentos de direita se unem para minar a democracia americana. Os críticos destacam a pesquisa minuciosa de Katherine Stewart, a documentação extensa e o relato direto de conferências e manifestações. O livro revela as vastas redes financeiras que financiam forças antidemocráticas e explica como grupos diversos — incluindo fundamentalistas religiosos, nacionalistas brancos e oligarcas — se juntam apesar de objetivos distintos. A maioria considera a leitura assustadora, mas essencial, embora alguns achem o conteúdo denso e desanimador. Os críticos valorizam o jornalismo de Stewart, mas temem que ela fale apenas para os já convencidos. Vários questionam seu desfecho otimista, dado o sucesso do movimento.
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