Principais Lições
1. O Retorno dos Estados Leviatãs
Hoje, os Estados abandonaram muitas das restrições da era liberal. De instituições que afirmavam ampliar a liberdade, tornaram-se guardiões que protegem os seres humanos do perigo. Em vez de barreiras contra a tirania, oferecem abrigo contra o caos.
Os Estados modernos transformam-se em entidades poderosas, muito além do conceito original do Leviatã de Thomas Hobbes. Diferentemente do soberano limitado de Hobbes, cujo papel principal era evitar a “guerra de todos contra todos”, esses novos Leviatãs buscam moldar almas e garantir sentido para seus súditos. Essa mudança é evidente no surgimento de novas ditaduras na Rússia e na China, onde as amarras liberais tradicionais foram rompidas, e o Estado intervém na sociedade em grau sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial.
Esses Estados emergentes, embora prometam segurança, paradoxalmente fomentam a insegurança ao transformar recursos essenciais, como alimentos e energia, em armas, como se vê nas ações russas. O regime de vigilância chinês, exportado globalmente, ameaça as liberdades ocidentais, enquanto, nas sociedades ocidentais, grupos identitários rivais travam uma “guerra de todos contra todos” pelo poder estatal. Essa luta alcança o controle do pensamento e da linguagem, conduzindo a uma repressão generalizada imposta pela sociedade civil e pelas corporações tecnológicas, marcando o fim de uma civilização liberal fundada na tolerância.
O aparente triunfo do liberalismo após a Guerra Fria foi uma ilusão, que ocultou o início de seu declínio. Eventos como a pandemia global, as mudanças climáticas e a guerra na Europa aceleraram essas transformações, revelando que a expansão dos mercados não conduziu automaticamente à liberdade. Em vez disso, o mundo assiste ao ressurgimento do capitalismo controlado pelo Estado, onde as forças de mercado servem a objetivos governamentais e a riqueza se concentra em pequenos grupos politicamente influentes, desafiando a ideia de uma evolução liberal universal.
2. A Autorrejeição do Liberalismo
Cada uma dessas ideias é uma meia-verdade.
Os princípios centrais do liberalismo, antes tidos como universais e fundamentais, revelam-se agora como verdades parciais que, em última análise, contribuíram para sua própria ruína. John Gray define o liberalismo clássico por quatro ideias: individualismo, igualitarismo, universalismo e meliorismo. Embora esses conceitos tenham moldado séculos de pensamento político, suas limitações e contradições tornaram-se evidentes no século XXI.
O individualismo, que afirma a primazia moral do indivíduo, ignora outras necessidades humanas fundamentais além da autopreservação, como o desejo de defender um modo de vida considerado superior, mesmo à custa da paz. O igualitarismo, que postula igualdade moral para todos, não leva em conta a disposição humana de sacrificar segurança por valores específicos. O universalismo, que afirma a unidade moral da espécie, frequentemente desconsidera a profunda importância das identidades culturais diversas.
O meliorismo, a crença na melhoria indefinida das instituições sociais, é minado pela realidade de que o progresso nunca é garantido e pode sempre ser perdido. Hobbes, embora um pensador liberal fundamental, também reconheceu o “privilégio da absurdidade” na linguagem humana, onde as palavras podem possuir as pessoas e levá-las à autoenganação. Essa compreensão mais profunda da natureza humana ajuda a explicar por que o experimento liberal, construído sobre essas meias-verdades, chegou ao seu fim.
3. O Perigo da Absurdidade e da Linguagem
Pois as palavras são as fichas dos sábios, com as quais apenas calculam; mas são o dinheiro dos tolos, que as valorizam pela autoridade de um Aristóteles, um Cícero, um Tomás ou qualquer outro doutor, desde que seja homem.
A capacidade única da humanidade para a linguagem, embora dotada de um poder criativo quase divino, também gera uma ansiedade constante e uma propensão à absurdidade. Hobbes identificou sete maneiras pelas quais os humanos caem em conclusões absurdas, principalmente ao confundir palavras com coisas e ao tomar ideias abstratas por realidades independentes. Isso conduz a um perigoso distanciamento da realidade concreta, onde conceitos como “Humanidade” tornam-se atores reificados, e não meras abstrações.
O “privilégio da absurdidade” permite que os humanos construam sentido por meio do nonsense, exemplificado pelo conceito moderno de “humanidade” como um agente singular e atuante. Esse erro categorial, como notaram Hobbes e Spinoza, é perigoso: quando alguns indivíduos são considerados “menos humanos”, abre-se caminho para sua eliminação. O registro histórico mostra que a invocação da “Humanidade” frequentemente precede massacres em massa, evidenciando o potencial destrutivo dessas ficções abstratas.
A esperança racionalista de Hobbes, de que definições claras poderiam libertar a humanidade do feitiço da linguagem, mostrou-se equivocada. Em vez disso, os humanos frequentemente usam palavras como “dinheiro dos tolos”, valorizando-as pela autoridade em vez do significado, o que gera disputas e conflitos. Essa posse linguística contribui para os estados artificiais de natureza, onde uma “luta implacável pelo controle do pensamento e da linguagem” torna-se característica central, corroendo ainda mais a civilização liberal.
4. Estados Artificiais de Natureza e Totalitarismo
Hobbes concebeu o Leviatã como um “animal artificial” criado pelos humanos para escapar do estado de natureza. Ele não previu que, em suas tentativas de remodelar a humanidade, regimes totalitários criariam estados artificiais de natureza.
Regimes totalitários, em sua ambição de remodelar a humanidade, criam inadvertidamente estados artificiais de natureza muito mais insidiosos do que o caos imaginado por Hobbes. O sistema soviético, por exemplo, fomentou um estado crônico de extremidade, onde o medo constante de denúncias gerava profunda desconfiança entre indivíduos, até mesmo dentro das famílias. Esse experimento produziu o “Homo Sovieticus”, uma espécie de solitários hobbesianos, isolados e predadores uns dos outros para sobreviver.
O cerco de Leningrado ilustra vividamente esse estado artificial de natureza, onde a escassez extrema, o canibalismo e a desumanização sistemática dos cidadãos tornaram-se comuns. Os sobreviventes foram transformados, tornando-se “estranhos para si mesmos”, com corpos e mentes deformados pela fome. Esse período revelou como poder e sobrevivência estavam intrinsecamente ligados, com as elites do partido desfrutando abundância enquanto milhões morriam de “distrofia”, evidenciando a brutal estratificação dentro do sistema supostamente igualitário.
O Grande Terror exemplificou ainda mais essa ambição destrutiva, liquidando não apenas opositores, mas grande parte da nova classe dominante, demonstrando uma “morte sem alarde” para aqueles que mal haviam começado a desfrutar seus privilégios. Figuras como Daniil Kharms, que buscavam liberdade lúdica por meio do absurdo, foram consumidas pela violência do regime, morrendo na prisão. Esses exemplos históricos ressaltam como as tentativas de engenharia de uma nova humanidade frequentemente resultam na destruição sistemática dos laços sociais existentes e na criação de uma insegurança pervasiva imposta pelo Estado.
5. O Hiperliberalismo como Religião Woke
Psicologicamente, oferece uma fé ersatz para aqueles que não podem viver sem a esperança da salvação universal inculcada pelo cristianismo.
Os movimentos woke, longe de serem uma força emancipatória universal, são um sintoma do declínio ocidental e uma extensão hiperbólica do liberalismo, particularmente potente nos países de língua inglesa. Essa ideologia cumpre múltiplas funções: racionaliza um capitalismo em crise ao desviar a atenção da desigualdade econômica para conflitos identitários, e atua como veículo para que “elites excedentes” assegurem poder e status em um mercado profissional competitivo.
Não se trata de marxismo nem de pós-modernismo; o pensamento woke carece do rigor intelectual de Marx e da sutileza de Derrida ou Foucault. Funciona como uma “carreira tanto quanto um culto”, onde graduados redundantes mercantilizam valores hiperliberais para obter prestígio social. Os campi universitários, com seus regimes inquisitoriais e declarações obrigatórias de diversidade, servem de modelo para esse controle social difuso, priorizando a conformidade em detrimento da investigação intelectual genuína ou do mérito.
Enraizado no monoteísmo cristão, o hiperliberalismo traduz ideias centrais do cristianismo — primazia do indivíduo, igualitarismo, universalismo e meliorismo — em formas seculares, mas sem a influência moderadora da misericórdia ou do perdão divinos. A vitimização confere autoridade moral, espelhando narrativas cristãs, mas é usada pelos “liberais woke” para elevar sua autoestima, não para compaixão genuína. Essa “frenesi moral puritano” conduz à intolerância e a uma “contrarrevolução moral”, ameaçando a paz civil e as próprias liberdades liberais que pretende defender.
6. A Ilusão do Progresso e a História Cíclica
Não existe arco da história, nem curto nem longo.
A crença no progresso histórico linear, especialmente a ideia de que a democracia liberal é a “forma final do governo humano”, é uma ilusão profunda. Teorias como o capitalismo evolutivo de Hayek ou o “Fim da História” de Fukuyama foram um amontoado de erros e falácias, incapazes de reconhecer que a evolução, como Darwin a compreendeu, não tem destino nem propósito inerente. As sociedades não convergem inevitavelmente para uma forma ideal única de governo.
A história é cíclica, marcada pela ascensão e queda de grandes potências e pela recorrência de regimes diversos — monarquias, repúblicas, tiranias, teocracias e zonas sem Estado. A ordem liberal global “baseada em regras” do pós-Guerra Fria foi mero artefato da supremacia militar dos EUA, que começou a se desfazer com o exagero americano e o ressurgimento da rivalidade geopolítica. A noção de que “a História é como a Humanidade, uma aparição iridescente” ressalta a natureza efêmera das grandes narrativas.
A história da Rússia exemplifica esse padrão cíclico, com sucessivos desmanches e reconstruções de mundos, desde o colapso do czarismo até o experimento soviético e a atual “cleptoteocracia” de Putin. O próprio desmantelamento das liberdades liberais no Ocidente demonstra que o suposto destino da história desapareceu nas sociedades onde nasceu. Essa realidade sugere que o futuro se assemelhará ao passado, com regimes díspares interagindo em condição de anarquia global, em vez de avançar rumo a um ideal liberal universal.
7. O Impulso Destrutivo na Natureza Humana
Matar por causa das palavras dá sentido às suas vidas.
Além da autopreservação, os seres humanos possuem um profundo impulso destrutivo, frequentemente disfarçado por ideologias e pela busca de ideais abstratos. Hobbes, embora reconhecesse o conflito humano, negligenciou o impulso singular do homem de buscar a morte para si e infligi-la aos outros para garantir sentido ou extravasar a raiva. Essa “paixão pela destruição” é aspecto central do animal humano, que o distingue das outras criaturas.
A teoria do “desejo de morte” de Sabina Spielrein propôs que a destruição é inerente à criação, componente necessário do impulso da espécie para reproduzir-se e evoluir, mesmo à custa da sobrevivência individual. Contudo, a interpretação freudiana de Thanatos como um impulso puro à destruição, que encontra satisfação na morte, descreve melhor as ideologias que levaram ao assassinato em massa no século XX. Esse “paradoxo psicanalítico” sugere que o assassinato em massa pode ser a expressão mais extrema da negação da morte, pois os humanos matam por abstrações para escapar de sua própria mortalidade.
Os horrores do totalitarismo, desde os expurgos soviéticos até o Holocausto, ilustram esse impulso destrutivo, onde a liquidação de grupos “historicamente obsoletos” ou “menos que plenamente humanos” foi justificada por grandes projetos ideológicos. Figuras como Jung, que colaborou com os nazistas, e Eitingon, ligado aos serviços de segurança soviéticos, mostram como até intelectuais podem ser seduzidos por ideologias letais. Isso revela uma falha profunda na psique humana, onde a busca por sentido pode conduzir a crueldades inimagináveis, tornando “a destruição como causa do vir-a-ser” uma realidade aterradora.
8. O Fim do Antropoceno e as Realidades Planetárias
O Antropoceno não é a era do domínio humano, mas o momento em que a posição da espécie no planeta é posta em questão.
O domínio humano sobre o planeta é uma concepção moderna, pois o Antropoceno marca não o triunfo humano, mas um questionamento crítico do lugar da espécie na Terra. A ilusão de uma ordem liberal global “baseada em regras” ocultou as realidades subjacentes da rivalidade geopolítica e da indiferença planetária. Aceleradas mudanças climáticas, pandemias e guerras por recursos forçam um reequilíbrio brutal, reminiscentes de crises globais passadas que reduziram drasticamente as populações humanas.
O mito do crescimento econômico infinito e a transição para energias renováveis revelam-se quimeras. A demanda por minerais para tecnologias verdes exige mineração prodigiosa, movida por combustíveis fósseis, tornando “a energia renovável um derivado dos combustíveis fósseis”. Essa demanda crescente alimenta novos “Grandes Jogos” de rivalidade imperial, como no Ártico, transformando os últimos redutos do planeta em zonas de conflito geopolítico e devastação ambiental.
A Terra trata os regimes humanos com indiferença imparcial; importa apenas seu impacto material. Sociedades que encaram a mudança climática como mera narrativa moral perecerão ou serão absorvidas por outras mais pragmáticas. A única resposta prática é a adaptação, possivelmente por meio de alta tecnologia como a geoengenharia, que traz seus próprios riscos, inclusive a militarização. Em última análise, se os humanos não se ajustarem, o planeta imporá as mudanças necessárias, rewilding-se e encerrando a centralidade humana em sua vida.
9. O Desejo Inconsciente de Morte do Ocidente
Um desejo inconsciente de morte está em ação.
O Ocidente liberal é consumido por uma ideia de liberdade que paradoxalmente conduz a um “despotismo ilimitado”, como previu Dostoiévski. Essa visão hiperliberal condena qualquer restrição à vontade humana como repressão, acreditando que, uma vez corrigidas as injustiças sociais, os indivíduos poderão criar seus mundos ideais. Contudo, essa busca por autodeterminação irrestrita exige monitoramento e controle onipresentes, purificando a linguagem e escrutinando mentes por “crime de pensamento”.
Essa autoimolação, trágica e farsesca, é movida por um desejo inconsciente de morte, uma falta de autoconsciência que impede o Ocidente de reconhecer seu próprio declínio. Apelos conservadores por um “suicídio do Ocidente” destacam esse espetáculo, mas a mente ocidental contemporânea está demasiado iludida para perceber sua própria ruína. Tentativas de reviver o Ocidente liberal são fúteis, como “prescrever a um velho doente que se torne jovem novamente”.
Nietzsche identificou esse desejo de morte no “socratismo” — a crença de que a razão pode redimir a humanidade do mal e da tragédia. Esse culto apolíneo, desligado de suas origens místicas, insiste que a ciência pode superar o caos, embora frequentemente sirva a impulsos destrutivos. A deificação do animal humano, do transumanismo à conquista da morte, é o desfecho inevitável do liberalismo divorciado de sua matriz teológica, conduzindo a uma autodestruição profunda onde o homem fica sem nada.
10. A Paz como Trégua Temporária
Onde pode ser alcançada, a paz é uma trégua, parcial e temporária, entre o animal humano e ele mesmo.
A mensagem oculta de Hobbes é que não há libertação final do estado de natureza; o Leviatã, como os humanos, é mortal. Ele foi um liberal mais verdadeiro que seus sucessores ao reconhecer que a paz pode ser alcançada em muitas formas de regime, não apenas em uma. A crença em uma forma única e universal de governo é, em si, uma espécie de tirania, ignorando os diversos caminhos que as sociedades podem trilhar.
O futuro será um complexo mosaico de regimes díspares, não uma convergência em um único ideal. A cleptoteocracia de Putin, o Panóptico high-tech da China, o possível retorno da Índia a um império tolerante e a metamorfose da UE em um “caleidoscópio desbotado” são todas possibilidades. Os EUA, se evitarem uma guerra global, podem derivar como um “híbrido florido de seitas fundamentalistas, cultos woke e oligarcas tecno-futuristas”, cercados por zonas ingovernáveis.
O “privilégio da absurdidade” da humanidade reside na consciência da mortalidade, que a impele a buscar a imortalidade nas ideias e, tragicamente, a matar por palavras. Contudo, esse vazio interior também pode impulsionar a ação a serviço da vida, como na resistência de Samuel Beckett durante a Segunda Guerra Mundial. Em última análise, a própria vida, com seu ímpeto inerente, nos guia pela tempestade, lembrando que a paz é uma trégua frágil e temporária na luta contínua do animal humano consigo mesmo.
Resumo das Resenhas
Os Novos Leviatãs recebe críticas mistas (3,43/5). Muitos comentadores apontam a ausência de um argumento coerente e a estrutura fragmentada do livro, descrevendo-o mais como uma série de ensaios dispersos do que uma análise unificada. Vários críticos reprovaram os ataques de Gray a um "liberalismo" e à cultura "woke" indefinidos, sem um envolvimento substancial com esses temas. A obra examina a geopolítica do pós-Guerra Fria, defendendo que a ordem liberal chegou ao fim e que novos "Leviatãs" autoritários passaram a dominar. As avaliações positivas valorizam o realismo pessimista de Gray e a sua crítica à arrogância liberal, elogiando a exploração que faz de Hobbes e de pensadores menos conhecidos. Contudo, mesmo os admiradores reconhecem a natureza dispersa do livro e a ausência de soluções claras ou de uma organização consistente.
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